domingo, 14 de setembro de 2008

LUZ NA ÁGUA


Durante a sua caminhada o meu avô deu-me a conhecer um episódio que se perde no tempo e que passo a transcrever de uma forma muito resumida :

"Saio da gruta onde resido temporáriamente com o meu grupo, composto por vários elementos e de faixas etárias variadas e caminho ao longo do planalto coberto com espessas camadas de gelo. Sinto um frio intenso, embora os agasalhos de pele me acariciem o corpo. Resolvo ir no encalce das renas... Sei que andam relativamente perto. Precisamos de alimento e de mais peles. Faço uma batida de terreno num raio de muitos kms... sinto que existe perto um curso de água, abrigado e onde o sol sorri. Tenho também como objectivo encontar um local mais aprazível para abrigar os meus.

Com o meu caminhar apressado o frio adormece e deixa de me incomodar.O sangue aquece nas minhas veias e a paisagem vai-se transformando a pouco e pouco. Uma beleza infindável, aromática e mais quente. Lá mais em baixo, algo brilha.Não sei o que é , mas aos poucos tenho a noção clara que é a luz do sol reflectida em algo. Sim... é um raio de sol que beija carinhosamente a água gelada. Um riacho abre caminho no meio das pedras. Aqui e ali alguns blocos de gelo ,que se vão derretando à mediada que vou caminhando. Sorrio e agradeço à minha Mãe este encontro Divino. Sento-me numa rocha e olho em meu redor. Preciso de descansar. Doi-me o corpo, ou talvez a alma. Lembro-me dos meus e regresso ao ponto de partida e encaminho o meu grupo para aquele local. Agora sim. Temos o que precisamos...temos o olhar da Mãe, que nos espera para amamentar e embalar-nos no seu carinhoso regaço .

A tristeza dá lugar à alegria e à esperança de podermos continuar a caminhada por mais tempo ,até aos lugares que a voz do vento nos quer levar.

Encontrámos as renas tão próximas de nós. De noite, sob a tela estelar, acendemos uma fogueira e soaram os tambores , cujo som se expraiva em nós em conexão com nossa Mãe.

Sentámo-nos ao redor do Fogo dos nossos Antepassados e conversámos sobre as tormentas que nos assolaram... e, mais uma vez ,me encontrei com o meu espaço Sagrado, onde formatei as minhas ideias e tudo aquilo que estava arquivado e preservado pelo frio intenso que senti.Ao som dos tambores fechei os olhos e elevei a minha consciência e chegou-me a mensagem de que eu sou e serei sempre um ser Universal em busca de um propósito na vida ... em busca da clareza e da transformação diária com o intuito de despertar a beleza que me rodeia, o meu poder pessoal e continuar abraçar o meu caminho. Reconheci mais uma vez, as manifestações da Natureza, da Criação Divina e a Harmonização patente na sobrevivência que todos saboreámos vitoriosos.

Foi difícil sim... mas sempre que alguém fraquejava as minhas palavras eram:

- A Adversidade faz parte do Caminho; a Mudança faz parte do Caminho ... mas as Armas que temos são a Fé, a Coragem e a Determinação. Só assim e em grupo,poderemos navegar em águas revoltadas e transpôr as emoções que nos acompanham...

E abraçando o Fogo que nos aquecia naquela noite fria , olhámos em frente ... mais uma estapa se avizinhava!

Que continuem a tocar os tambores da minha Alma ... "
(imagem retirada da net Zaroio.com)